sábado, 14 de dezembro de 2013

Crônicas da Rua DOIS

PINTURA DE MATEUS SANTOS

Os textos a seguir foram escrito por Uma escritora e Moradora, Eurídice Alves, nesse trabalho ela conta sobre a fonte.

A FONTE! AH, A FONTE!

          Os Scarpel, nossos bravos pioneiros, não ficaram alheios aos grandes mananciais que a humilde vila oferecia. E, com muito zelo, conseguiram canalizar uma das muitas minas de águas límpidas.
          O trabalho constituiu em trazer, para o terreno belo e estratégico, as águas que brotavam a cerca de cinqüenta metros de distancia. A bica foi protegida por uma construção caprichosa e muito segura. No restante do terreno, foi construído um jardim com aproveitamento das árvores já existentes. Uma delas deixava pender seus ramos floridos sobre um poço que brigava a fonte. Uma obra de arte!
         Nessa agravável recanto, as pessoas aproveitavam a hora de buscar água para realizar seu ponto-de-encontro. Nos finais de semana, os turistas eram convidados a visitarem a fonte, principal atração do bairro. O bosque ao redor proporcionava excelentes acomodações para piqueniques.
         Era um costume tradicional das senhoras do bairro, juntarem-se uma espécie de procissão na noite de 24 de junho, exatamente à meia noite. Cada uma levava uma garrafa, e iam recolher a “Água de São João”, que servia para lavar os olhos durante todo o ano.
         Mas, porque tudo isso acabou? Mais uma vez, entra em cena o “senhor Progresso” que fez do “homem civilizado” um elemento predador de sua própria riqueza. Houvesse na vila apenas silvícolas, aos quais fossem oferecidas tal fonte, e ainda hoje eles a teriam conservada e límpida.

Eurídice Alves


O MAUSOLÉU DA FONTE

 Eis aí o “Mausoléu” sob o qual jaz, ainda viva, nossa principal atração turística dos anos 50. Viva? Sim, a terra continua generosa e ainda não fez secar a água que fluía abundantemente pela fonte.
Mas, agora seu destino é engrossar a corrente de águas poluídas provenientes dos esgotos domésticos. Por sua vez, a corrente irá poluir aos heróicos riachos, que ainda teimam em circular pelo bairro, apesar do ingrato papel a que ficaram reduzidos (apenas escoadouros de excrementos).
Onde havia uma fonte virtuosa, foi erigida uma fonte de vícios. Coisas do progresso? Ou da ganância?
Cabe salientar que, passadas mais três décadas, sempre que certos moradores do Jardim Belém se vêem privados da água fornecida pelo serviço público, ocorrem “filiais” da fonte, isto é, a um dos poços residências ainda conservados pelos moradores mais antigos e desconfiados do “progresso”. Não cabe porem, censurar sua oposição, pois não registros de epidemias de tifo ou coisa parecida que possa contribuir aos longos anos de consumo destas águas sem cloro. Pelo contrario, o pessoal com mais de 60 anos de idade se mostra bem mais forte e disposto que nossos debutantes da era espacial.
E, conforme o adágio popular, “contra fatos não há argumentos”.

Eurídice Alves